Desafiaram-me para
escrever sobre a minha cidade, lugar onde sempre vivi, cresci e ao qual
pertenço inequivocamente: Lisboa.
Já que me deram a
oportunidade de “pensar Lisboa” vou aproveitar para fazer um balanço sobre a
evolução da construção na capital, ao longo dos últimos anos. Isto porque,
ainda nos custa a crer que tenha sido consumada a demolição parcial do n.º 233
da Av. Almirante Reis, edifício que remata o extremo norte da Praça João do Rio
Um acto ilegal, que o
município não soube travar a tempo e que aos olhos de todos, foi executado como
se o exemplar em causa, da autoria de um dos expoentes máximos do modernismo,
Cassiano Branco, não valesse absolutamente nada. O embargo tardio de Salgado
acabou por não evitar que o crime fosse cometido.
E agora? Será que o
promotor da obra “Hotel do Aeroporto, Actividades Hoteleiras, SA” vai ser
forçado a reconstruir a fachada? A ver vamos…
A Expo 98 foi de facto um
marco importantíssimo, do ponto de vista do planeamento urbanístico. Entre 70 e
90 Lisboa passou por uma série de metamorfoses camarárias que, ao sabor dos
ventos, das modas e das vontades, a foram descaracterizando em retalhos e
sobras de um património arquitectónico comprometido de forma irreversível. A
sucessão dos massacres e demolições atrozes a que o edificado de interesse já
foi sujeito, foi de facto incompreensível.
Essa massificação da
construção, que juntou a fome das imobiliárias, à vontade de comer dos
construtores, alimentou muitos interesses, que a crise acabou por ceifar. Hoje
podemos dizer que em Lisboa, as reabilitações ganharam terreno às obras de
construção nova, não só mas também porque se passou a ter em conta uma
revalorização da cidade. Porque afinal a preservação do património, conserva o
ADN das Urbes, antigas e ´tão singulares como a nossa. É isso que a pode
diferenciar das outras capitais europeias, e é por isso que será tão ou mais
atractivas que as demais.
Uma tomada de consciência
por parte do município que chegou em boa hora, ainda que incompreensivelmente
tardia. Uma mudança da betonização do edificado para reabilitações “fachadistas”,
que não reduzem os prédios a entulho, mas que soam e cheiram a falso. É que a
maioria delas apenas conserva a “pele” dos edifícios, esventrando os
interiores, e aumentando o número de pisos, acrescentados sem qualquer contexto
e coerência à estrutura original. Será apenas mau gosto dos arquitectos ou
permissividade de quem decide? Mais haveria
por dizer...
Pedro Marques Silva
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