O Pensar Lisboa teve conhecimento do "Estudo científico do FADO: Desenvolvimento da educação, saúde e performance dos cantores, professores de canto e clínicos da voz do FADO".
Tendo em conta o facto de ser um projecto inovador e que trata sobre uma temática que é tão querida à cidade de Lisboa, o Fado, decidimos desafiar uma das investigadoras que integra o Projecto, a Dra. Aira Rodrigues, Terapeuta da Fala, a apresentar-nos este projecto.
Estudo científico do FADO: Desenvolvimento da educação, saúde e performance dos cantores, professores de canto e clínicos da voz do FADO
Sendo o Fado um estilo de canto unicamente
português e reconhecido pela UNESCO enquanto Património Imaterial da Humanidade,
o Fado de Lisboa e o Fado de Coimbra são os mais conhecidos, distinguindo-se
pela afinação mais grave da guitarra portuguesa neste último e técnica de
execução diferenciada (Cravo, 2002).
À semelhança da caraterização
acústica, fonatória e fisiológica de outros estilos musicais, como, lírico,
pop, jazz, country, soul e teatro musical que já foram estudados (Bezerra et
al., 2009; Butte et al., 2009; Callaghan et al., 2004; Camargo, Barbosa, &
Teles, 2007; Gusmão et al., 2010; Lundy et al., 2000; Mendes et al., 2003;
Sundberg & Skoog, 1997), torna-se pertinente, relevante e urgente analisar
o nosso FADO (Mendes, Rodrigues e Guerreiro, 2004, 2011, 2012) que até ao
momento apenas teve uma análise de caráter antropológico, histórico e/ou
etnomusicológico (Castelo-Branco, 2004; Gouveia, 2010; Nery, 2004). A ideia de
estudar o FADO surgiu em 1999, aquando Mendes estava a analisar os efeitos do treino vocal no sistema respiratório e
fonatório de estudantes universitários de canto lírico. O estudo acústico,
fonatório e fisiológico da voz do FADO permitirá uma adequada intervenção em
três eixos de atuação: pedagógica, clínica e científica junto destes cantores.
Não existiam estudos científicos
que caracterizassem acusticamente a voz falada e cantada dos cantores de Fado,
ao contrário de outros estilos musicais. As medidas temporais (tempo máximo de fonação e índice s/z), espetrais (particularmente,
a frequência fundamental – F0)
e de perturbação (jitter, shimmer, índice harmónio-ruído) permitem a
caracterização acústica da voz falada e cantada (Araújo et al., 2002). A
análise acústica vocal é cada vez mais utilizada na prática clínica do
terapeuta da fala e otorrinolaringologistas, prática pedagógica do professor de
canto e na prática de outros profissionais que se dedicam ao estudo da voz
humana, tais como foneticistas e vocologistas (Benninger & Murry, 2008;
Sataloff, 2006). Na população de cantores, em particular, a análise acústica
vocal é a ferramenta mais objetiva e não-invasiva que permite prevenir,
monitorizar, reabilitar e/ou optimizar a sua voz falada e/ou cantada.
Em 2012, Mendes, Rodrigues &
Guerreiro realizaram o estudo-piloto que permitiu esboçar o perfil acústico da
voz dos cantores de Fado. Quinze fadistas Lisboetas produziram tarefas
fonatórias em voz falada e cantada. Na voz falada, o tempo máximo de fonação e índice
s/z dos cantores de Fado estava próximo do limiar considerado patológico. A
F0 foi mais aguda que nos
não-cantores e mais grave que nos cantores líricos. Os valores médios de jitter e shimmer foram superiores aos
referidos para não-cantores. O índice
harmónico-ruído foi similar ao valor médio para não-cantores. Na voz
cantada, o jitter foi superior
comparativamente a cantores country, teatro musical, soul, jazz e lírico e
inferior a cantores pop. O shimmer
foi inferior ao dos cantores country, teatro musical, pop, soul e jazz, e
superior ao dos cantores líricos. O
índice harmónico-ruído foi similar ao dos cantores líricos. A extensão máxima de frequência vocal dos
cantores de Fado enquadrou-os na classificação de barítonos e mezzo-sopranos
para os sujeitos do sexo masculino e feminino, respetivamente. Adicionalmente,
a maioria dos cantores de Fado apresentou vibrato
e raramente o Formante do Cantor.
Estes resultados foram apresentados em várias conferências científicas
nacionais e internacionais e foram publicados no Journal of Voice, Philadelphia,
USA.
Em 2013, a Fundação para a Ciência e Tecnologia classificou este projeto de Muito Bom e a Fundação Calouste Gulbenkian aprovou-o para financiamento. Durante
o próximo ano, 384 fadistas serão recrutados para gravações de modo a termos
uma amostra representativa desta população e podermos generalizar e extrapolar
os dados para estes profissionais de voz.
Esperemos que todas as
casas de Fados em Lisboa tenham conhecimento deste estudo, porque no fundo, o
nosso objetivo primordial é manter e/ou melhorar a qualidade vocal dos nossos
fadistas, tendo em conta um padrão acústico vocal de referência para este
estilo musical e que garanta melhores performances e uma melhor saúde vocal
destes cantores!
Concordo. Tudo a bem da ciência, Claro! Bem hajam.Asdrubal
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