O que está no memorando da troika é sagrado e deve ser cumprido à risca, senão fecham-nos a torneira do dinheiro que tanto precisamos, como o corpo precisa de oxigénio para sobreviver. Que a redução de freguesias e municípios é algo indispensável de se fazer, isso é notório e fácil de compreender: estruturas administrativas pensadas para a realidade do séx. XIX não podem sobreviver no séc. XXI. Mas o que surpreende é exactamente este pequeno recorte que tive a amabilidade de ter o trabalho de colocar aqui.
Descontando o facto de não se reduzir os municípios, uma cedência inadmissível aos lobbies das Câmaras; o que me chamou a atenção é exactamente um mero pormenor que consta no texto. Reza o artigo que o inimitável Carlos Carreiras considera que a redução de fregueisas em Cascais não deve avançar.
Ora bolas, agora fico a pensar: então o Carlos Carreiras que tanto defendeu a reforma administrativa em Lisboa, agora não vai aplicá-la em Cascais. E curiosidade das curiosidades, é a mesma pessoa que teve a amabilidade e a decência de negociar a reforma administrativa que se vai operar em Lisboa. Pois é, eu apenas pergunto: onde está a coerência? Onde está a coerência de um político que negoceia algo e depois se recusa a aplicar exactamente na câmara onde se pretende candidatar? Quais são os lobbies que aqui operam? Será que "um dos principais vultos do aparelhismo do PSD", voilá, está a sucumbir ao aparelhismo? O que tem Carlos Carreiras a ganhar por ter feito uma reforma em Lisboa e se recusar a fazer uma reforma em Cascais, seguindo um bom exemplo, que ele próprio contribuiu decisivamente?
Oh diabo, ironia das ironias: o que serve para Lisboa, não serve para Cascais. Ironia das ironias: Carlos Carreiras andou a negociar uma solução para Lisboa, olha que engraçado, uma solução que pelos vistos já não é tão boa para Cascais. Ironia das ironias: reduzir uma data de freguesias em Lisboa é uma solução fixe, mas reduzir duas, repito, duas em Cascais, oh diabo que é um escândalo, "agarrem-me antes que faça alguma coisa!!".
É triste, é ridículo, é absolutamente inaceitável que os políticos nacionais tenham uma falta de coerência gritante como esta. Ai ai ai ai, por que caminhos vai a política nacional com estes exemplos... Haja decência e bom-senso, é só o que eu peço na minha humilde opinião
Se calhar vale esperar por comentários do próprio. Digo eu.
ResponderEliminarIsto da internet é maravilha.
ResponderEliminarUm minuto depois, encontro a declaração feita à Lusa, esquecida no Sol e talvez conveniente ao post que nada me agrada;
"Ainda não abandonei a ideia, mas foi muito mal aceite até dentro do meu próprio partido. Não é uma questão essencial, apesar de eu considerar que era importante para Cascais. Se houver obrigatoriedade pela lei de reduzir freguesias, far-se-á. Para já, fica sem efeito"
Que interessante é o contexto não é?
E aliás nem sei porque estamos a discutir Cascais...
Não se trata de discutir Cascais, meu caro, apesar de achar que é um município deveras interessante nas suas concepções fundamentais. Trata-se, unicamente, de estabelecer comparações de actuação política.
ResponderEliminarA esta altura do campeonato, quer a nível nacional, quer a nível local já não me interessam as palavras ou as meias-palavras; interessam-me sim os actos e as intenções. Cada palavra tem o seu significado específico, cada frase é dita mediante o seu contexto, com algo por detrás que motive essa mesma declaração.
Eu apenas anoto uma falta gritante, repito, gritante de coerência que é um dos males que mais descredibiliza a política nacional, quer local. Existe uma diferença, assim me ensina qualquer dicionário Português-Português, entre "considerar importante" e "obrigatoriedade". Ou de uma forma mais lata, entre fazer algo e negociar algo para uma Câmara e, depois, naquela onde se está defender uma solução diferente.
O assunto é o mesmo, a solução é diferente; quer se queira, quer não, isto é falta de coerência. As razões que presidem à reforma administrativa em Lisboa são as mesmas, sem tirar nem pôr, que presidem a qualquer reforma administrativa em qualquer Câmara Municipal.
Para quem é "um dos principais vultos do aparelhismo do PSD", é irónico que seja exactamente a mesma pessoa que sucumbe a esse mesmo aparelhismo.
Odeio faltas de coerências, são exemplos, maus exemplos que contribuem para o descrédito da política. E a sua declaração à Lusa ainda é pior, não abandona a ideia mas "epa o aparelho não gosta é melhor não". Ou então, "se houver obrigatoriedade". Então e em Lisboa não havia obrigatoriedade mas mesmo assim se faz? Considera que é uma questão importante, mas mesmo assim coloca em causa?
Incoerência, pura incoerência
Pontos de vista.
ResponderEliminarA mim faz-me espécie quando as pessoas ficam espantadas que um político faça política.
Naturalmente meu caro, pontos de vista são o que são, é o que torna belo a democracia e a sua efervescência argumentativa e ideológica baseada numa crítica e construtiva troca de ideias e excursos.
ResponderEliminarA mim não me faz espécie nenhuma quando os políticos "fazem" política. Apenas me faz espécie quando a política que é "feita", difere, por completo, da visão ideológica que eu tenho sobre a mesma. Eu gosto que os políticos "façam" Política, mas nunca política. Aliás, eu não sei o que é "fazer" Política, compreendo sim o que seja "praticar" Política, sendo esta uma arte, ou "ars" num latim rudimentar. Mas, et voilá, são pontos de vista, arrepiam-me faltas de coerência, arrepiam-me que os valores fundamentais da Democracia pensados durante a Grécia Classíca não sejam praticados nos dias que correm. Mas é como tudo, as utopias continuarão a ser sempre utopias!
Nota final: dá imenso jeito que os políticos pratiquem a Política que, no meio de uma panóplia de valores fundamentais, tem uma ideia: coerência de argumentos, de ideias. Demasiado ideológico? Quiçá, mas este país tem um défice gritante, vá, "colossal", de ideologia e discussões ideológicas politicamente incorrectas.
Pontos de vista.